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Ah, o cinema! 

PUBLICADO EM 12/07/2016

Uma vez por mês levo meu sobrinho pequeno ao cinema. É programa sagrado. Normalmente aos sábados. Dia de comer muita porcaria, ver um filme divertido e brincar bastante. Hoje quero falar de cinema! Da delícia de sentar-se na poltrona com um balde de pipoca e um galão de refrigerante ao colo e assistir ao lado de quem se gosta um blockbuster repleto de correrias, música alta e cenas de ação inverossímil. Ou um desenho animado habitado por seres rechonchudos, narigudos e multicoloridos. “Mas bah, Corbari, está alimentando teu guri com lixo cultural estadunidense?” A pergunta é direta. A resposta, não.

Faz-me lembrar de uma prosa de anos atrás, com o amigo-livreiro Marco Girardello, quando o sobrinho era outro (hoje adulto) e o produto cultural em pauta eram livros. Me incomodava a leitura insistente de Harry Potter’s e afins. “Porque diabos esse piá não se interessa por coisa que preste?” E o amigo, com ares que misturavam o marketing de vendas com a sabedoria de vida argumentava: “Não questiona a leitura dele, se puder orienta, mas se não puder deixa que leia, porque neste tempo o mais importante é o hábito”. E sim, os hábitos se transformam. Aliás, é muito mais simples transformar para melhor um bom hábito já principiado, do que criar um novo do zero.

Meu pequeno Vicenzo, 7 anos, acostumado a ver filmes de heróis no cinema, assistiu comigo e com mais 80 pessoas há pouco mais de mês, a animação brasileira “O menino e o mundo”. Sem poltrona, sem balde de pipoca, sem galão de refri. Trata-se de uma experiência cinematográfica de estética contrária ao ritmo de videoclipe imposto pelas produções hollywoodianas, linguagem experimental, repleta de silêncios e sonoridades difusas e sem diálogos aparentes. O filme foi projetado no salão paroquial pela tela inflável do SESC e da CUFA. Um filme que muitos adultos tiveram dificuldades em compreender. E ele acompanhou do início ao fim com atenção e encantamento.

Meu pequeno, do alto de sua imaturidade proporcionou-me mais uma lembrança doce para a coleção de memórias que venho compondo. Do hábito de cinemateca ele já tem suas preferências – que em muito já orgulham o tio -, como por exemplo o chocolate Wonka produzido pelo Gene Wilder ao do Jhonny Depp. O hábito, cultivado com carinho, lindamente começa a se transformar.